Opinião
Games

O novo filme de Resident Evil é mais um tapa na cara dos fãs

5 min de leiturapor Mustefuego
Atualizado por último em: 3 de maio de 2026 às 21:28 BRT

Existe uma mania antiga de Hollywood quando encosta em videogame: a de agir como se adaptar nunca fosse suficiente. Parece que sempre existe a necessidade de “reinventar”, “reinterpretar”, “expandir”, “trazer uma nova visão”, como se o material original fosse só um ponto de partida simpático para algo supostamente mais nobre. E talvez seja exatamente isso que assuste no novo Resident Evil de Zach Cregger, marcado para 17 de setembro de 2026 no Brasil. O primeiro trailer, somado à sinopse e às declarações recentes do diretor, sugere um filme de terror com bastante personalidade, atmosfera e convicção. O problema é que quase tudo também indica que ele pode falhar justamente na parte mais básica: ser, de fato, Resident Evil.

E esse é o tipo de erro que irrita porque não nasce de falta de talento. Cregger não é um diretor qualquer tentando surfar no nome da franquia. Barbarian já tinha mostrado que ele entende medo, desconforto e construção de tensão, e Weapons consolidou ainda mais essa imagem, chegando com recepção crítica fortíssima. Então a questão aqui não é incompetência. É escolha. E escolha, às vezes, decepciona mais do que acidente.

O que foi apresentado até aqui parece seguir um raciocínio que, no papel, pode soar moderno, mas no fundo carrega aquele velho desrespeito de Hollywood com videogame. Em vez de adaptar a história que já existe, com os personagens, o peso dramático e a identidade que fizeram Resident Evil 2 entrar para a história, Cregger decidiu contar uma trama paralela, ambientada naquela mesma noite em Raccoon City, mas centrada em Bryan, um entregador médico interpretado por Austin Abrams, atravessando o caos em uma missão de sobrevivência. Em outras palavras: estamos voltando a uma das noites mais icônicas dos games não para acompanhar Leon, Claire, Ada, a queda de Raccoon City e o horror da Umbrella, mas para seguir um sujeito lateral, um personagem novo, praticamente um NPC promovido a protagonista.

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Games ainda lutam para serem reconhecidos como arte

E aqui está o ponto que mais incomoda: não existe redundância em adaptar bem uma grande história. A justificativa do diretor, de que recontar a trajetória do Leon seria redundante porque os jogos já fazem isso muito bem, parte de uma visão torta sobre adaptação. Quando o cinema adapta livros, peças ou quadrinhos respeitados, ninguém trata os protagonistas como algo descartável só porque a obra original “já contou aquilo”. Pelo contrário: quase sempre se parte do princípio de que, se o coração da obra funciona, ele merece ser preservado. Mas com videogame existe essa arrogância esquisita. Parece que, quando a base é um jogo, muita gente em Hollywood se sente autorizada a pegar só a estética, o nome, meia dúzia de referências e depois fazer o que bem entender. Como se o jogo fosse uma arte menor, uma matéria-prima flexível, algo que não merecesse o mesmo respeito estrutural que outras formas de narrativa recebem.

E é aí que esse novo Resident Evil começa a soar errado. Porque tudo o que há de mais forte em Resident Evil 2 não está apenas no “mundo” em que a história acontece. Está em quem vive aquela noite, no choque entre personagens, no colapso progressivo da cidade, no encontro entre horror biológico e tragédia humana, no peso da Umbrella como motor da catástrofe. Você pode até construir uma boa história “na margem” desses eventos, mas a pergunta continua de pé: por que fazer isso quando a história principal já é tão forte, tão cinematográfica e tão pronta para ser adaptada?

O mais curioso é que o próprio material de divulgação torna essa contradição ainda mais visível. O trailer passa uma sensação real de claustrofobia, desespero e sujeira. A atmosfera parece promissora. A textura de horror está ali. Dá para acreditar perfeitamente que Zach Cregger vai entregar um filme tenso, brutal e bem dirigido. Só que isso, por si só, não resolve o essencial. Um filme pode acertar o medo e errar a alma. Pode acertar o terror e perder a identidade da franquia. E, pelo caminho que está sendo descrito, esse risco parece muito real.

No fundo, a impressão é a de sempre: Hollywood mais uma vez olhando para Resident Evil e pensando menos em “como traduzir isso para o cinema?” e mais em “como usar isso para contar a minha versão?”. Essa postura até pode render um bom filme. Talvez renda mesmo. Talvez renda um ótimo horror de sobrevivência ambientado em Raccoon City. Mas isso não o transforma automaticamente em um bom Resident Evil. E essa distinção importa, porque fã de videogame está cansado de ver adaptação ser tratada como licença para ignorar o centro da obra original.

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Vem aí mais uma enxurrada de filmes com o nome Resident Evil, mas sem ser Resident Evil?

Existe, claro, uma leitura otimista. O filme pode funcionar como porta de entrada para algo maior. Pode ser uma desculpa para iniciar um universo cinematográfico que, mais à frente, finalmente abrace com seriedade os personagens, os eventos e a espinha dorsal da franquia. Essa é a esperança mais generosa. A menos generosa é imaginar que esse modelo vire regra: hoje acompanhamos um coadjuvante em Raccoon City; amanhã, quem sabe, um forasteiro qualquer tentando sobreviver ao culto de Resident Evil 4 enquanto Leon resolve a história principal em outro lugar, porque, afinal, “os jogos já contaram isso”.

No fim, minha impressão é simples. Esse filme tem toda a cara de ser muito bom como terror. E justamente por isso pode decepcionar ainda mais como Resident Evil. Porque o diretor parece ter talento de sobra para fazer algo impactante. O problema é que talento não substitui reverência. E uma franquia como essa não precisava de alguém querendo provar que consegue contar sua própria história dentro dela. Precisava, talvez pela primeira vez no cinema, de alguém disposto a aceitar que a história principal já era boa o bastante para ser adaptada do jeito certo.

Tomara que o filme seja bom. Tomara mesmo. E tomara, mais do que isso, que Zach Cregger surpreenda e mostre mais respeito pela franquia e pelos fãs do que o trailer, a sinopse e suas próprias declarações sugerem até aqui. Porque Resident Evil não precisa de mais um cineasta tentando ser maior do que a obra original. Precisa, finalmente, de alguém disposto a entendê-la.

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