A Ubisoft retirou de seu novo relatório anual uma das justificativas mais criticadas já usadas pela empresa para defender microtransações em jogos pagos. A frase que afirmava que a monetização poderia tornar a experiência “mais divertida” não aparece no Documento de Registro Universal referente ao ano fiscal de 2025-26.
A mudança foi identificada pelo jornalista Stephen Totilo, que comparou o novo documento com a edição publicada no ano anterior. A Ubisoft manteve boa parte do discurso sobre sua estratégia comercial, mas eliminou justamente o trecho que relacionava compras adicionais à diversão dos jogadores.
A remoção ganhou repercussão em meio às críticas contra a monetização de Assassin’s Creed Black Flag Resynced. No entanto, não há evidências de que a alteração tenha sido feita como resposta direta à controvérsia envolvendo o jogo.
O relatório foi disponibilizado em 6 de julho de 2026, enquanto o remake chegou ao mercado em 9 de julho. Isso significa que o trecho já havia sido removido antes de os jogadores descobrirem a quantidade de conteúdos adicionais vendidos separadamente.

Uma frase que não passou despercebida
No relatório referente ao ano fiscal de 2024-25, a Ubisoft defendia que sua estratégia de monetização em jogos premium respeitava a experiência dos consumidores.
A empresa afirmava que sua “regra de ouro” era permitir que os jogadores aproveitassem completamente um título sem precisar gastar além do valor inicial. Logo depois, porém, acrescentava que as microtransações tornavam a experiência mais divertida ao oferecer personalizações e formas de avançar mais rapidamente.
O argumento foi criticado por colocar conteúdos cosméticos e atalhos de progressão na mesma categoria. Embora ambos possam ser opcionais, vender formas de evoluir mais rapidamente levanta dúvidas sobre o equilíbrio do próprio jogo.
Se a progressão normal é divertida, por que oferecer uma maneira paga de acelerar ou evitar esse processo?
Na edição de 2025-26, a Ubisoft manteve a afirmação de que jogos premium devem ser aproveitados integralmente sem gastos adicionais. A parte que relacionava monetização a uma experiência “mais divertida”, entretanto, desapareceu.
A retirada não significa que a companhia abandonou as microtransações. A estratégia comercial continua presente no documento. O que mudou foi a tentativa de apresentá-las como um benefício direto para a diversão do consumidor.
Assassin’s Creed Black Flag Resynced reacendeu a discussão
A alteração no relatório foi descoberta justamente quando a monetização da Ubisoft voltava ao centro das discussões.
Assassin’s Creed Black Flag Resynced chegou ao Brasil custando R$ 299,99 em sua edição básica para PC. Na semana de lançamento, os conteúdos adicionais vendidos separadamente somavam aproximadamente R$ 424,91, valor superior ao preço do próprio jogo.
Entre os produtos disponíveis estavam roupas, armas, itens para o navio, mapas e recursos utilizados para acelerar melhorias. Portanto, nem todo o conteúdo era apenas visual. Algumas compras ofereciam vantagens práticas e reduziam o tempo necessário para obter determinados recursos dentro do jogo.
A quantidade de conteúdos pagos disponíveis logo no lançamento provocou uma onda de críticas. O título recebeu avaliações negativas de jogadores que questionavam a presença de centenas de reais em conteúdos adicionais dentro de uma experiência vendida por preço cheio.

Ubisoft diz que a edição padrão está completa
Em resposta às reclamações, a Ubisoft afirmou que a edição padrão oferece a experiência completa, incluindo todas as missões, ilhas, a história principal e o mundo explorável.
Segundo a empresa, os pacotes adicionais são opcionais e não são necessários para terminar ou aproveitar o jogo.
A resposta rebate a acusação de que partes essenciais da experiência foram removidas para serem vendidas separadamente. Ela não elimina, porém, a principal crítica dos consumidores: a inclusão de atalhos, recursos e personalizações pagos em um remake comercializado por preço cheio.
Quando uma empresa vende formas de acelerar a progressão, surge inevitavelmente a dúvida sobre o ritmo natural do jogo. Mesmo que a compra não seja obrigatória, o sistema pode ser planejado para tornar a alternativa paga mais atraente.
A Ubisoft mudou o discurso, não o modelo
A ausência da frase no novo relatório mostra que a Ubisoft percebeu o desgaste provocado pela tentativa de apresentar microtransações como algo criado para aumentar a diversão.
Isso não representa uma mudança de estratégia. Black Flag Resynced demonstra que a companhia continua disposta a incluir lojas, cosméticos e atalhos de progressão em jogos premium.
A diferença está na comunicação. Em 2025, a Ubisoft tentou convencer investidores e consumidores de que pagar para personalizar personagens ou avançar mais rapidamente tornava seus jogos melhores. Em 2026, preferiu não repetir a justificativa.
A Ubisoft não abandonou as microtransações. Apenas abandonou o discurso de que elas deixam os jogos mais divertidos.

