A Capcom vive um daqueles momentos em que quase tudo parece estar encaixando. Com projetos como Resident Evil Requiem, Monster Hunter Stories 3 e Pragmata recebendo boa atenção do público, a empresa decidiu explicar uma mudança importante em sua forma de desenvolver jogos.
Nada disso aconteceu por acaso
Em entrevista à Famitsu, Haruhiro Tsujimoto, presidente e COO da Capcom, afirmou que um dos pontos centrais dessa transformação foi abandonar a dependência excessiva de criadores individuais. Segundo ele, quando uma franquia passa a girar em torno de uma única pessoa, o futuro da série fica vulnerável.
Na prática, o problema é simples: se aquele criador sai, muda de ideia ou não quer seguir adiante, a franquia pode travar. O jogo deixa de ser uma estrutura criativa sustentável e vira quase uma extensão de um único diretor.
Essa é uma armadilha que a indústria já viu acontecer. A Konami, por exemplo, ainda enfrenta dificuldade para reposicionar Metal Gear Solid após a saída de Hideo Kojima. Já a própria Capcom parece ter encontrado outro caminho. Séries como Resident Evil, Monster Hunter e Street Fighter continuaram fortes mesmo após a saída de nomes importantes ligados às suas origens.

A aposta em equipes, não em gênios isolados
Segundo Tsujimoto, essa transição não aconteceu por acaso. A Capcom discutiu diretamente com figuras centrais de suas franquias e chegou à conclusão de que precisava mudar a lógica interna de produção.
A nova abordagem passou a tratar cada projeto quase como uma reconstrução do zero. A empresa sabia que poderia haver queda temporária nas vendas durante essa mudança, mas decidiu assumir o risco para construir algo mais duradouro. O objetivo era trocar um modelo dependente de indivíduos por uma estrutura baseada em equipes. Em vez de deixar uma série presa à visão de uma única pessoa, a Capcom passou a buscar continuidade criativa dentro do próprio estúdio.
Essa mentalidade ajuda a explicar por que a empresa hoje consegue manter franquias antigas em movimento sem parecer refém do passado. O jogo não precisa morrer quando um diretor vai embora. A marca, a equipe e a visão de longo prazo precisam continuar funcionando.
Devil May Cry pode ser o próximo teste
Esse discurso ganha ainda mais peso quando se olha para Devil May Cry. A Capcom já sinalizou que quer continuar nutrindo a franquia, e os números ajudam a explicar o interesse. Devil May Cry 5 registrou recentemente um recorde de vendas anuais mesmo anos após seu lançamento.
A saída de Hideaki Itsuno, diretor criativo associado à série, poderia ser vista como um obstáculo natural para o futuro da franquia. Mas a fala de Tsujimoto sugere o contrário: a Capcom quer provar que suas séries podem continuar sem depender eternamente do mesmo nome no comando.
No fim, a mensagem é clara. A Capcom entendeu que franquias fortes não podem viver presas a um único criador. Talento individual importa, mas estrutura também importa. E, neste momento, a empresa parece convencida de que o futuro dos seus grandes jogos depende menos de um “gênio solitário” e mais de equipes capazes de carregar essas marcas por décadas.

