Resident Evil 4 Remake é um excelente jogo. A Capcom modernizou a jogabilidade, aprofundou personagens, expandiu a história e entregou uma das melhores releituras já feitas pela indústria. Ainda assim, ele não supera o original.
A versão de 2005 tem mais personalidade, mais coragem e uma atmosfera que o remake nunca consegue reproduzir por completo. O novo jogo é tecnicamente superior em quase tudo, mas perdeu parte do desconforto, da estranheza e da identidade que transformaram Resident Evil 4 em um clássico.
O original era mais sombrio e solitário
Resident Evil 4 original usava uma paleta acinzentada, fria e quase depressiva. A vila, o castelo e a ilha pareciam lugares mortos, sujos e completamente isolados do restante do mundo. Leon estava cercado de inimigos, mas o próprio cenário já transmitia a sensação de que ele não deveria estar ali.
O remake abandona boa parte dessa identidade ao apostar em cores muito mais fortes e variadas. Há mais verde, vermelho, azul, amarelo e tons quentes espalhados pelos ambientes. O jogo continua bonito e possui momentos sombrios, mas raramente transmite a mesma tristeza e solidão do original.
Para um jogo de terror, esse excesso de cores torna os cenários mais agradáveis e confortáveis do que deveriam ser. Em vez de parecer preso em um lugar doente e abandonado, o jogador muitas vezes sente que está atravessando ambientes ricos e visualmente vibrantes.
Essa diferença também afeta os inimigos. Dr. Salvador, Garrador e Regenerador continuam ameaçadores, mas suas versões no remake possuem cores mais vivas e contrastes mais fortes. No original, os tons apagados faziam essas criaturas parecerem parte daquele mundo decadente, como se estivessem apodrecendo junto com os cenários.
O Regenerador é o exemplo mais evidente. Sua pele quase sem cor, o sorriso imóvel e a respiração perturbadora combinavam perfeitamente com os corredores frios da ilha. No remake, ele continua assustador, mas os tons mais vivos e o maior contraste visual diminuem parte daquela aparência cadavérica e antinatural.
O original entendia que um jogo de terror não precisava ser visualmente vibrante. Sua paleta sem vida tornava tudo mais triste, hostil e desconfortável. O remake exagera nas cores e, com isso, perde parte da atmosfera pesada que fazia Resident Evil 4 parecer tão solitário.

A trilha sonora carregava mais peso
A música do original também contribuía para essa atmosfera.
Serenity, tema tocado em momentos de descanso, é uma das melhores composições da franquia. A faixa é calma, triste e quase vazia. Em vez de apenas informar que o jogador chegou a uma área segura, ela faz com que ele pare por alguns segundos.
A música transmite alívio, mas não elimina a preocupação. Você organiza o inventário, conversa com o Mercador e pensa no que ainda terá de enfrentar.
As novas versões das trilhas são muito boas e funcionam dentro da proposta do remake. Porém, são mais cinematográficas e produzidas. Falta aquela simplicidade melancólica que tornava o original tão marcante.
Serenity não precisava crescer, explodir ou preparar uma cena dramática. Sua força vinha justamente da calma.
O sistema de parry deixa Leon poderoso demais
O remake também é mais fácil em vários momentos, principalmente por causa do sistema de parry.
A faca permite bloquear golpes que antes exigiam leitura, distância e posicionamento. Ataques comuns, investidas e até motosserras podem ser neutralizados no tempo certo, dando ao jogador uma saída segura mesmo quando a situação já saiu do controle.
O sistema é divertido e funciona bem dentro da jogabilidade moderna, mas reduz parte da tensão. No remake, Leon quase sempre possui alguma resposta defensiva imediata. Mesmo cercado, ainda pode aparar um golpe, contra-atacar, chutar um inimigo ou abrir espaço para escapar.
No original, o jogador também tinha armas poderosas, munição e recursos suficientes para enfrentar grandes grupos. A diferença é que não existia uma defesa universal capaz de apagar um erro no último segundo. Se Leon fosse cercado ou deixasse um inimigo se aproximar demais, a situação podia se tornar fatal rapidamente.
Por isso, o parry não apenas deixa o combate mais dinâmico. Ele torna Leon muito mais seguro e diminui a sensação de estar acuado. O remake faz o jogador se sentir preparado para qualquer ameaça. O original fazia questão de lembrar que, por mais armado que você estivesse, um único erro ainda podia custar tudo.

O novo Leon perdeu parte do carisma
Leon também perdeu parte do carisma no remake.
No original, ele enfrentava o absurdo com sarcasmo. Fazia piadas ruins nas piores horas, provocava os vilões mesmo quando estava em desvantagem e tratava situações completamente insanas com uma naturalidade quase debochada. Suas falas eram exageradas, mas combinavam perfeitamente com o tom do jogo.
Até a relação com Ashley era mais distante. Leon cumpria a missão, protegia a garota e seguia em frente sem transformar cada conversa em um momento dramático. Ela era alguém que precisava ser salva, e ele lidava com o caos ao redor usando ironia.
O remake prefere um Leon mais sério, traumatizado e responsável. Essa abordagem aprofunda as consequências de Raccoon City e torna o personagem mais humano, mas também o deixa mais previsível.
Ele ainda faz algumas piadas, porém são falas mais seguras e controladas. Falta a arrogância, a falta de filtro e o humor inconveniente que tornavam o Leon original tão marcante.
O antigo Leon não tentava parecer respeitável o tempo inteiro. Ele podia ser cafona, exagerado e até inconveniente, mas nunca era sem graça.
O remake criou um protagonista mais realista. O original tinha muito mais personalidade.
O exagero e a galhofa também ajudaram a construir a identidade de Resident Evil
O remake também reduziu boa parte da galhofa que tornava Resident Evil 4 tão particular. A perseguição da enorme estátua de Ramón Salazar é o exemplo mais óbvio: uma cena completamente absurda, impossível de levar a sério e, justamente por isso, inesquecível.
Muita gente comemorou a retirada desses momentos por considerar que eles quebravam o terror. O problema é que Resident Evil nunca dependeu apenas de seriedade. A franquia sempre misturou horror, ficção científica, vilões caricatos, diálogos cafonas e situações ridículas sem qualquer vergonha.
Resident Evil 4 original levava essa combinação ao extremo. Leon fazia piadas em situações desesperadoras, Salazar parecia um vilão de desenho animado e o jogo alternava tensão com cenas que beiravam a comédia involuntária. Essa mistura não atrapalhava sua identidade. Era a própria identidade.
Ao tornar tudo mais coerente e contido, o remake ganhou consistência, mas perdeu parte da ousadia. Suas cenas são mais sérias e bem amarradas, porém também menos imprevisíveis e menos memoráveis.
A galhofa não diminuía Resident Evil 4. Era o que impedia o jogo de parecer apenas mais uma aventura de ação genérica.

Um grande remake, mas ainda abaixo do original
Isso não significa que Resident Evil 4 Remake seja uma decepção. Pelo contrário: a Capcom entregou uma releitura ambiciosa, moderna e digna de um dos jogos mais importantes da história.
A jogabilidade foi atualizada com competência, os gráficos são excelentes e personagens como Ashley e Luis Serra receberam muito mais desenvolvimento. As missões secundárias incentivam a exploração, enquanto a campanha aproveita melhor vários elementos da história que antes eram pouco trabalhados.
Separate Ways também representa uma evolução enorme. A DLC de Ada Wong ganhou mais conteúdo, melhores confrontos e uma participação muito mais relevante dentro da narrativa.
O remake acerta em muitos pontos. É mais profundo, mais refinado e tecnicamente superior. Mas modernizar uma obra não significa melhorar tudo o que ela fazia.
O original continua mais sombrio, mais solitário, mais estranho e muito mais divertido. Sua combinação de terror, ação, humor ruim e exagero criava uma personalidade que o remake nunca consegue reproduzir por completo.
Resident Evil 4, de 2005, não parecia preocupado em ser sério, elegante ou realista. Ele simplesmente assumia sua identidade e levava cada ideia até o limite.
O remake é uma excelente releitura. Mas o original continua sendo a melhor versão.



