Não é de hoje que parte da imprensa ocidental olha para certos jogos orientais como se eles precisassem pedir desculpas por existir. Basta uma protagonista feminina ser bonita, estilosa, sensual ou simplesmente fugir do padrão visual “aceitável” pelo moralismo moderno para o debate deixar de ser sobre gameplay, combate, direção de arte ou diversão. De repente, o jogo vira réu em um tribunal ideológico onde beleza feminina é tratada como problema, sensualidade vira pecado e qualquer personagem atraente passa a ser analisada menos como criação artística e mais como ameaça política.
Foi assim com Stellar Blade em 2024. E, pelo visto, está acontecendo de novo com Stellar Blade: Blood Rain
O primeiro Stellar Blade já havia sido colocado nesse tribunal antes mesmo de muita gente discutir o que realmente importava no jogo: combate, ritmo, direção de arte, chefes, trilha sonora e estrutura de gameplay. Em vez disso, boa parte da conversa foi sobre o corpo de Eve. A protagonista virou alvo não por ser mal escrita, mal animada ou mal inserida naquele universo, mas simplesmente por ser bonita, sensual e assumidamente estilizada.
O caso mais emblemático veio de um dos maiores portais de games do mundo, em sua divisão francesa, que publicou uma crítica pesada ao design da personagem e chamou Eve de uma boneca sexualizada criada por alguém que nunca teria visto uma mulher. A frase pegou muito mal, gerou uma reação enorme da comunidade, o trecho acabou sendo alterado e o portal pediu desculpas. Mas o estrago já estava feito: mais uma vez, a aparência de uma personagem feminina tinha sido tratada como problema moral antes mesmo de ser analisada como escolha artística.
A ironia é que Eve foi baseada no corpo real da modelo sul-coreana Shin Jae-eun. Ou seja, o discurso que tentava vender a personagem como uma fantasia impossível caiu na própria armadilha. A revista Maxim chegou a sair em defesa da modelo justamente para lembrar o óbvio: aquele corpo existe. O que era apresentado como uma crítica sofisticada ao “padrão irreal feminino” acabou soando como algo bem menos nobre: uma tentativa de decidir quais corpos femininos podem ou não ser considerados aceitáveis dentro de um videogame.

Agora, com Stellar Blade: Blood Rain, a história se repete, apenas com outro foco
Agora, o alvo é Evie, a nova protagonista de Stellar Blade: Blood Rain. Mais baixa, com aparência mais jovem e um estilo de combate focado em confrontos corpo a corpo, a personagem foi criada para transmitir uma presença diferente da de Eve. O próprio diretor Kim Hyung-tae explicou que a escolha foi intencional: Evie deveria parecer fisicamente menor, mas compensar isso com uma personalidade mais forte, uma postura mais agressiva e batalhas mais intensas.
Em uma discussão realmente interessada no jogo, esse deveria ser o ponto principal. A mudança de protagonista altera o ritmo da gameplay? O combate corpo a corpo traz uma identidade própria? Evie consegue ser mais marcante do que Eve? A narrativa evoluiu? A Shift Up aprendeu com os pontos fracos do primeiro jogo? Essas seriam perguntas muito mais relevantes do que reduzir novamente a conversa ao visual da personagem.
Mas parte do debate seguiu pelo caminho mais previsível. Em vez de analisar tudo isso, a discussão voltou a girar em torno da aparência feminina. Para alguns jornalistas e comentaristas, parece impossível falar de Stellar Blade sem transformar design de personagem em pauta política. Se a protagonista é sensual, vira exploração. Se é bonita, vira fantasia masculina. Se parece mais jovem, vira suspeita. Se usa roupas chamativas, vira escândalo.
No fim, o jogo deixa de ser analisado como jogo e passa a ser julgado por um filtro ideológico já conhecido. E é exatamente isso que torna esse debate tão cansativo
A indústria ocidental passou anos tentando vender a ideia de que personagens femininas só são “fortes” quando rejeitam qualquer traço de sensualidade. Muitas protagonistas passaram a ser escritas como figuras sempre irritadas, arrogantes, visualmente desinteressantes e mais preocupadas em dar lição de moral no jogador do que em protagonizar uma aventura divertida. Não é que toda personagem precise ser sexy. Esse nunca foi o ponto. O problema é agir como se beleza, feminilidade e sensualidade fossem defeitos. Essa visão empobrece os jogos.
Personagens femininas podem ser sérias, engraçadas, brutais, delicadas, sensuais, simples, complexas, bonitas, estranhas, carismáticas ou desagradáveis. O problema começa quando uma parte da imprensa decide que apenas um tipo de representação é aceitável, enquanto qualquer personagem mais atraente passa a ser tratada como sinal de atraso, fetiche ou “problema cultural”.

É aí que o jornalismo vira proselitismo político
Em vez de analisar o jogo pelo que ele promete entregar, parte da crítica parece mais interessada em dizer ao público o que ele deveria ou não aceitar. É como se alguns jornalistas não conseguissem olhar para uma protagonista bonita ou estilizada sem imediatamente transformar o próprio incômodo em tese política.
O caso de Evie torna essa reação ainda mais curiosa. A Shift Up parece estar tentando responder justamente a algumas críticas feitas ao primeiro jogo. Kim Hyung-tae já reconheceu que Eve poderia ter sido mais forte como personagem, e Blood Rain parece caminhar nessa direção ao apresentar uma protagonista com identidade própria, postura mais agressiva, estilo de luta diferente e papel mais definido dentro da narrativa. Só que boa parte da conversa ignora essas mudanças para voltar ao ponto de sempre: a aparência.
É isso que torna o debate tão viciado
Com Stellar Blade, parece não haver escolha capaz de escapar desse filtro. Eve era sensual demais, então virou problema. Evie é mais jovem e menor fisicamente, então também vira problema. Se a personagem é chamativa, incomoda. Se muda o perfil visual, incomoda do mesmo jeito. No fim, a franquia raramente é julgada apenas pelo que entrega como jogo, mas pelo quanto seu design feminino desafia o gosto moral de uma parte da imprensa ocidental.
E vale deixar claro: ninguém é obrigado a gostar de Stellar Blade.
O primeiro jogo tinha problemas que podem e devem ser discutidos. A narrativa poderia ser mais forte, Eve poderia ter mais presença como personagem, o universo poderia ser melhor explorado, etc. Tudo isso é crítica válida. Mas existe uma diferença enorme entre criticar decisões de design e tratar a existência de uma protagonista atraente como se fosse um crime cultural.
Porque, no fim, o público quer jogar. Quer saber se o combate é bom, se a história prende, se os chefes são marcantes, se a progressão funciona e se o jogo diverte. O jogador casual não abre um trailer de Stellar Blade: Blood Rain esperando uma aula de moral sobre representação feminina. Ele quer saber se a Shift Up vai entregar uma sequência melhor, mais intensa e mais interessante do que o primeiro jogo.
E talvez seja exatamente isso que incomode tanta gente
Stellar Blade fez sucesso sem pedir permissão para o gosto moral da imprensa ocidental. Blood Rain parece seguir o mesmo caminho. Pode errar, pode acertar, pode dividir opiniões. Mas não deveria ser condenado antes da hora apenas porque sua protagonista não se encaixa no molde estético que parte dos jornalistas decidiu chamar de “correto”.
Evie não precisa ser feia para ser forte. Não precisa ser desinteressante para ser respeitada. Não precisa abandonar sensualidade, beleza ou estilo para ser uma boa personagem. E Stellar Blade não precisa pedir desculpas por lembrar algo que alguns parecem ter esquecido: videogame também é fantasia, exagero, estilo e diversão.

