Opinião
Games
Consoles

A Nintendo é a única marca que ainda faz videogame de verdade

5 min de leiturapor Mustefuego
Atualizado por último em: 5 de julho de 2026 às 14:04 BRT

A Nintendo dá motivo de sobra para crítica. Mas, em uma indústria cada vez mais cheia de discursos confusos, ela preservou algo que Xbox e PlayStation vêm perdendo: uma identidade fácil de entender.

A Microsoft tenta fazer o Xbox ser console, Game Pass, nuvem, PC e marca multiplataforma ao mesmo tempo. A Sony ainda tem uma posição muito mais clara, mas também se complicou com hardware caro, jogos mais caros, lançamentos no PC e apostas em live service que saíram muito abaixo do esperado.

A Nintendo também tem assinatura, loja digital e escolhas difíceis de defender. A diferença é que sua mensagem principal continua clara: comprar um console Nintendo ainda significa entrar em uma plataforma construída em torno dos jogos da Nintendo.

Parece simples. Mas, em um mercado obcecado por live service, expansão digital e estratégia corporativa, simplicidade virou uma das maiores vantagens da empresa.

wp2427733.png

O Switch deu certo porque sua proposta sempre foi simples de explicar

O primeiro Switch e o Switch 2 não precisam disputar força bruta com PlayStation 5 e Xbox Series X para chamar atenção. A força da Nintendo está em outro lugar: consoles fáceis de entender, fáceis de vender e construídos em torno das franquias que continuam sustentando a marca.

Enquanto PlayStation e Xbox concentram boa parte da conversa em resolução, framerate, SSD, 4K, ray tracing, modo performance, serviços e jogos live service, a Nintendo trabalha com uma lógica mais direta: o console precisa servir ao jogo, não o contrário.

É por isso que a empresa passou tantos anos apostando em funcionalidades que realmente mudam a forma de jogar. O DS tinha duas telas e toque. O Wii colocou o movimento no centro da experiência. O Wii U, mesmo mal executado, tentou criar uma segunda tela integrada ao console. O Switch acertou em cheio ao unir portátil e mesa no mesmo aparelho. Agora, o Switch 2 reforça essa identidade sem precisar vender a ideia de que gráfico cinematográfico é o único caminho possível.

A Nintendo se preocupa mais com a diversão prática do jogador do que com a corrida pelo visual mais realista da geração. E a prova disso é que o console existe para sustentar Mario, Zelda, Pokémon, Metroid, Mario Kart e outras marcas que ainda carregam enorme apelo próprio. Isso não torna a empresa perfeita. Seus aparelhos costumam ser menos potentes, o online segue abaixo do esperado e algumas decisões comerciais são difíceis de defender. Mas a identidade da marca continua mais limpa do que a das concorrentes.

Hoje, Xbox e PlayStation são máquinas fortes, mas cada vez mais parecidas na forma como se apresentam. Já a Nintendo continua sendo fácil de reconhecer.

É por isso que ela se destaca. Não por ter a melhor ficha técnica, mas por ainda ser a gigante que mais entende que videogame precisa ser lembrado pelo que faz o jogador sentir no controle, não apenas pelo que aparece em uma comparação técnica.

mario-kart-world-characters-2k-wallpaper-uhdpaper.com-316@5@g.jpg

A Nintendo preserva o que Sony e Microsoft tratam como descartável

O contraste mais forte entre Nintendo, Sony e Microsoft não está só nos jogos. Está na forma como cada empresa lida com as pessoas e os estúdios por trás deles.

Nos últimos anos, cortes, cancelamentos e fechamentos viraram parte normal do noticiário da indústria. A Sony fechou a Firewalk Studios depois do fracasso de Concord e voltou a fazer cortes pesados na Bungie, afetando equipes ligadas a Destiny e Marathon. A Microsoft também acumulou decisões duras: fechou Arkane Austin, Tango Gameworks e Alpha Dog, absorveu a Roundhouse pela ZeniMax Online, cancelou projetos como Perfect Dark e Everwild e encerrou a The Initiative.

É aqui que a Nintendo se diferencia.

A empresa também erra, cobra caro e toma decisões difíceis de defender. Mas, enquanto parte do mercado tenta corrigir apostas ruins mandando equipes embora, a Nintendo segue protegendo melhor sua base criativa. Furukawa voltou a destacar aos acionistas que a companhia aumentou o salário base no Japão em 10% em 2023 e elevou novamente a remuneração dos funcionários em abril de 2026. Isso não é caridade. É respeito.

Franquias como Mario, Zelda, Pokémon, Metroid, Kirby e Mario Kart dependem de continuidade. Não adianta ter marca forte se a empresa trata seus times como peças substituíveis a cada erro de planejamento. Quando um estúdio fecha, a indústria não perde só cargos. Perde conhecimento, cultura, ferramentas, liderança e gente que entende por que aquelas séries funcionam.

Sony e Microsoft ainda têm equipes talentosas e jogos excelentes. Mas a frequência de cortes e cancelamentos passa uma mensagem ruim: quando a aposta dá errado, quem paga a conta é quem fez o jogo.

A Nintendo parece seguir outra lógica. Em vez de comprar estúdios para depois desmontar parte deles, ela preserva melhor o que já tem. Em vez de mudar o discurso a cada crise, mantém suas franquias no centro. E, em vez de tratar demissão como ajuste comum de rota, tenta segurar a estrutura que sustenta seus jogos.

No mercado atual, isso pesa.

Porque identidade não nasce só de personagem famoso. Nasce de equipe estável, cultura interna e gente com tempo para errar, aprender e melhorar sem viver com a sensação de que o próximo fracasso pode fechar o estúdio.

ChatGPT Image 4 de jul. de 2026, 16_13_43.png

A mídia física ainda tem espaço porque a Nintendo não virou as costas para ela

A Nintendo também mantém uma vantagem que Xbox e PlayStation parecem tratar como cada vez menos importante: a mídia física.

Enquanto as concorrentes empurram o mercado para lojas digitais, contas, licenças e consoles sem disco, a Nintendo ainda preserva o jogo físico como parte forte do seu negócio. As caixas continuam nas lojas, os cartuchos ainda têm apelo e existe um público que compra, coleciona, empresta, troca e revende.

Isso não é só nostalgia. É controle do consumidor sobre aquilo que comprou. Um jogo na prateleira pode ser guardado, vendido, emprestado ou jogado anos depois sem depender tanto de uma loja online funcionando, de uma conta ativa ou de uma licença digital sujeita a mudanças.

Em uma indústria que parece cada vez mais confortável em transformar compra em permissão temporária, a mídia física ainda representa posse de verdade.

No fim, a Nintendo é provavelmente a empresa mais conservadora do mercado. E talvez esteja aí uma das razões do seu sucesso. Enquanto Microsoft e Sony muitas vezes correm atrás das tendências da indústria, a Nintendo segue outro caminho: aposta em diversão, identidade própria e jogos que não precisam parecer iguais a todo o resto para funcionar.

Tags

Lojas digitaisHardwareOpiniao
Mustefuego avatar
47

Autor

Mustefuego

@mustefuego-Nível 47

Membro veterano do Tera Time, apaixonado por histórias sombrias e universos perturbadores. Viciado em terror e fã declarado de Resident Evil, Outlast, BioShock e Cuphead. Amante de videogames e cinema, com um fascínio especial pelo estilo caótico e criativo de Sam Raimi.

Entre na conversa

Faça login ou crie uma conta para comentar, responder e curtir outros comentários neste artigo.

0 Comentarios
?
1
Nenhum comentario ainda. Comece a conversa.