Notícias
Games
Consoles
PC

Microsoft apostou US$ 80 bilhões no Game Pass e não atingiu nem metade da meta de assinantes

5 min de leiturapor Mustefuego
Atualizado por último em: 8 de julho de 2026 às 20:59 BRT

A Microsoft tentou transformar o Xbox Game Pass na Netflix dos games. Gastou pesado, comprou estúdios, colocou franquias gigantes no centro da estratégia e apostou que milhões de jogadores trocariam a compra tradicional de jogos por uma assinatura mensal.

O problema é que a conta não fechou.

Segundo reportagem da Bloomberg citada pelo GameSpot, a Microsoft gastou quase US$ 80 bilhões na última década em movimentos para fortalecer o Xbox e impulsionar o Game Pass. A conta inclui aquisições gigantescas como a Activision Blizzard, dona de Call of Duty, e a ZeniMax, dona de Bethesda, The Elder Scrolls, Fallout e DOOM.

A ideia parecia irresistível no papel: reunir jogos famosos, lançamentos de peso e uma biblioteca enorme em um serviço de assinatura capaz de mudar o comportamento do consumidor. Só que videogame não é série de TV. E a Microsoft parece ter descoberto isso da forma mais cara possível.

XGPPC-Key-Art-3-scaled.jpg

O plano era ambicioso demais

O Game Pass nasceu com uma promessa simples: pagar uma mensalidade e ter acesso a uma grande biblioteca de jogos. Para o jogador, era conveniência. Para a Microsoft, era uma tentativa de mudar a lógica do mercado.

Em vez de depender apenas da venda de consoles e jogos individuais, o Xbox queria criar receita recorrente. A aposta era que o público passaria a enxergar o Game Pass como parte obrigatória da rotina gamer, do mesmo jeito que streaming virou hábito para filmes e séries.

Mas o comportamento do jogador é diferente. Uma pessoa pode assistir dezenas de episódios, filmes e séries em um mês. Nos games, o consumo costuma ser mais concentrado. Muitos jogadores passam semanas ou meses em um único título. Isso enfraquece a lógica de uma biblioteca “infinita” como argumento principal.

O próprio GameSpot, ao comentar o relatório da Bloomberg, cita esse ponto: o modelo de pagar uma mensalidade por uma grande biblioteca não funcionou nos games da mesma forma que funcionou no entretenimento linear.

A meta era 77 milhões. O número real ficou em 30 milhões

A distância entre expectativa e realidade é brutal.

Documentos revelados durante o processo de aquisição da Activision Blizzard indicavam que a Microsoft projetava chegar a 77 milhões de assinantes do Game Pass até o fim do ano fiscal de 2026. Segundo Bloomberg e Wall Street Journal, o serviço está hoje em torno de 30 milhões.

Pior: esse número é menor do que o divulgado pela própria Microsoft em 2024, quando Sarah Bond afirmou que o Game Pass tinha 34 milhões de assinantes. Ou seja, depois de aquisições bilionárias, lançamentos fortes e aumentos agressivos de catálogo, o serviço teria recuado em vez de explodir.

A situação ficou ainda mais delicada após os aumentos de preço. Segundo o GameSpot, Matthew Ball, diretor de estratégia do Xbox, disse que “milhões” de pessoas cancelaram o Game Pass depois do reajuste de 50% anunciado em 2025.

Call of Duty não salvou o Game Pass

A chegada de Call of Duty ao Game Pass era tratada como uma das grandes viradas da estratégia. Afinal, se uma das maiores franquias do planeta não fosse capaz de puxar assinantes em massa, o que seria?

Mas o resultado parece ter sido bem mais complicado. A inclusão de grandes lançamentos no serviço pode aumentar valor percebido, mas também reduz vendas diretas. Em outras palavras, o jogador que antes pagaria preço cheio por um jogo agora pode apenas assinar por um mês, jogar e sair.

Esse é o pesadelo do modelo: o Game Pass precisa ser barato o bastante para atrair público, caro o bastante para sustentar jogos gigantescos e forte o bastante para compensar vendas que deixam de acontecer. Até agora, a matemática parece muito mais difícil do que a propaganda fazia parecer.

thumb-1920-1400013.jpg

O custo da aposta começou a cobrar seu preço

Quando uma estratégia de US$ 80 bilhões não entrega o crescimento esperado, a parte bonita do discurso desaparece rápido. Entram as planilhas. A Microsoft está cortando cerca de 3.200 empregos na divisão Xbox, segundo o Wall Street Journal. Os cortes fazem parte de uma reestruturação maior do negócio, com demissões imediatas e novas reduções ao longo do ano fiscal.

O GameSpot também afirma que a empresa está vendendo estúdios, reduzindo investimentos e tentando “resetar” a operação do Xbox depois de anos de apostas que não cresceram no ritmo esperado.

É aqui que a história deixa de ser apenas sobre assinatura. O Game Pass não falhou sozinho. Ele virou símbolo de uma estratégia muito maior: comprar conteúdo, inflar catálogo, reduzir barreiras de entrada e esperar que escala resolvesse tudo.

Só que escala sem margem vira problema. E problema grande, em empresa gigante, geralmente termina em corte.

O Xbox tentou mudar o mercado antes de entender o jogador

A Microsoft não estava errada em perceber que o mercado precisava mudar. Jogos estão mais caros, consoles estão mais caros, produção AAA ficou insustentável e o público está cada vez mais seletivo. O Game Pass parecia uma resposta moderna para um problema real.

O Xbox tentou vender a ideia de que acesso era mais importante do que posse. Tentou convencer o jogador de que biblioteca valia mais do que compra. Tentou transformar lançamento em assinatura, assinatura em hábito e hábito em dependência.

Só que o jogador não se comporta como espectador de streaming. Ele não consome cem jogos por mês. Ele escolhe poucos, passa tempo neles e, muitas vezes, ainda valoriza propriedade, mídia física, biblioteca própria e compra direta.

A pergunta agora é se ainda existe saída

O Game Pass não acabou. Longe disso. O serviço ainda tem valor, ainda tem público e continua sendo uma das ofertas mais fortes do mercado para quem joga muito. O problema é outro: ele talvez não seja grande o bastante para sustentar sozinho a ambição que a Microsoft colocou nas costas dele.

Agora, o Xbox precisa decidir o que quer ser. Um console com exclusivos fortes? Um serviço de assinatura? Uma publisher multiplataforma? Uma loja? Um ecossistema em qualquer tela?

Durante anos, a resposta foi “tudo ao mesmo tempo”. O resultado foi uma marca gigante, cara e cada vez mais difícil de explicar.

O Game Pass prometia ser a revolução que colocaria o Xbox no centro do futuro dos games. Hoje, parece mais um lembrete de que nem toda ideia boa sobrevive quando encontra o comportamento real do público.

Tags

Servicos de assinaturaLojas digitaisEstrategia de mercadoNoticia
Mustefuego avatar
47

Autor

Mustefuego

@mustefuego-Nível 47

Membro veterano do Tera Time, apaixonado por histórias sombrias e universos perturbadores. Viciado em terror e fã declarado de Resident Evil, Outlast, BioShock e Cuphead. Amante de videogames e cinema, com um fascínio especial pelo estilo caótico e criativo de Sam Raimi.

Entre na conversa

Faça login ou crie uma conta para comentar, responder e curtir outros comentários neste artigo.

0 Comentarios
?
1
Nenhum comentario ainda. Comece a conversa.