A Microsoft colocou em palavras o que a reestruturação já deixava evidente: o Xbox, do jeito que vinha operando, precisava mudar. Em um memorando enviado aos funcionários, Asha Sharma afirmou que a divisão passa pelo “reset” mais significativo de sua história, com 3.200 cortes ao longo do ano fiscal de 2027, sendo 1.600 demissões já na primeira etapa. A reorganização faz parte de uma rodada maior de cortes na Microsoft, que soma 4.800 vagas em toda a companhia.
O movimento também mexe diretamente na estrutura criativa do Xbox. Compulsion Games e Double Fine Productions voltarão a operar como estúdios independentes, mantendo seus catálogos e propriedades intelectuais. Já Ninja Theory e Undead Labs entram em acordo para seguir sob novos proprietários, com financiamento para continuar projetos ligados a Senua e State of Decay 3.

O Xbox cresceu, mas a conta não fechou
A parte mais dura do memorando está na autocrítica financeira. Sharma afirmou que o negócio opera com margens entre três e dez vezes menores que empresas comparáveis de plataforma e publicação de jogos. Segundo ela, o Xbox entrou na geração atual com uma base instalada menor e uma estrutura de custos mais pesada, o que tornou a operação menos competitiva desde o início.
A Microsoft tentou compensar esse cenário com três apostas conhecidas: Game Pass, lançamento multiplataforma e expansão do portfólio de conteúdo. A empresa reconhece que essas frentes criaram valor, mas não cresceram no ritmo esperado. Enquanto isso, o negócio principal enfraqueceu, e a companhia continuou colocando mais equipes, investimento e tempo na esperança de uma virada que não veio.
A fase de comprar estúdios chegou ao limite
Desde 2018, o Xbox expandiu agressivamente seu portfólio de estúdios. Agora, a própria Microsoft admite que essa estratégia bateu em um muro. O memorando aponta que a indústria passou a produzir uma quantidade enorme de jogos e que o Xbox não concorre apenas com grandes publishers, mas também com milhares de estúdios independentes.
A conclusão é direta: não é possível, nem desejável, ser dona de todo grande estúdio independente. Sharma também reconheceu que nem todo tipo de estúdio encontra no Xbox o melhor lugar para crescer. Em um dos trechos mais fortes, ela afirma que, em um ano típico, a divisão perdia 64 centavos para cada dólar investido nesse modelo.
A nova lógica do Xbox parece clara: reduzir complexidade, cortar camadas de gestão e concentrar investimento onde existe maior chance de retorno. Sharma diz que algumas áreas chegavam a operar com até 14 níveis de gerenciamento e que as equipes de plataforma ficaram 40% maiores desde o início da geração, mesmo com queda na base de jogadores e no tempo de jogo.

O Xbox tenta parar de ser uma lista de compras
A Microsoft ainda promete investir pesado no Xbox, mas com mais foco e disciplina. Na prática, o recado é outro: a era de crescer comprando estúdio atrás de estúdio perdeu força. O Xbox quer continuar relevante, mas sem carregar internamente tudo o que tentou absorver nos últimos anos.
É uma virada simbólica. A empresa que passou boa parte da geração vendendo a ideia de expansão agora precisa defender uma redução. E, quando um memorando interno admite margens ruins, base menor, custos altos e apostas que cresceram abaixo do esperado, a mensagem fica difícil de suavizar.
O Xbox não está encerrando sua história. Mas está admitindo que a estratégia anterior não sustentava o futuro que a Microsoft prometeu.