A reestruturação do Xbox colocou uma pergunta incômoda no centro da mesa: afinal, o Game Pass cresceu o suficiente para sustentar a estratégia da Microsoft? Segundo o The Wall Street Journal, a resposta parece cada vez mais difícil de defender. O serviço estaria hoje na casa dos 30 milhões de assinantes, bem abaixo da projeção interna de 77 milhões em 2026 feita durante o processo de compra da Activision Blizzard.
A diferença é enorme. O Game Pass não ficou apenas abaixo da meta; ficou a menos da metade do alvo que a Microsoft havia colocado no papel. E isso ajuda a explicar por que a empresa agora fala em “reiniciar” o Xbox, em vez de apenas ajustar uma ou outra peça da operação.

O Game Pass não entregou o impulso que a Microsoft imaginava
A Microsoft apostou alto no Game Pass. O serviço virou a peça central do discurso do Xbox: catálogo robusto, jogos first-party no lançamento, acesso via console, PC e nuvem, além de uma promessa clara de transformar assinatura em hábito. Durante um tempo, a ideia parecia simples: quanto mais jogos entrassem no serviço, mais gente assinaria.
Só que o crescimento perdeu força. A própria Asha Sharma reconheceu, em memorando interno, que apostas como Game Pass, lançamentos em múltiplas plataformas e expansão do portfólio criaram valor, mas não cresceram no ritmo esperado. Segundo ela, enquanto isso acontecia, o núcleo do negócio enfraquecia e a empresa seguia colocando mais equipes, mais investimento e mais tempo em busca de um resultado que não veio.
A queda foi brutal: de 77 milhões esperados para cerca de 30 milhões
O número que mais pesa é a comparação com a expectativa interna da Microsoft. Documentos do processo envolvendo a aquisição da Activision Blizzard indicavam que a empresa projetava 77 milhões de assinantes do Game Pass em 2026. Agora, o WSJ aponta que o serviço está em torno de 30 milhões.
Esse dado também chama atenção porque a Microsoft havia divulgado mais de 34 milhões de assinantes em fevereiro de 2024. Se o novo número estiver correto, o Game Pass não apenas desacelerou: teria perdido milhões de assinantes desde então.
A compra da Activision não resolveu a equação
A aquisição da Activision Blizzard foi vendida como um movimento capaz de fortalecer brutalmente o ecossistema Xbox. A própria Microsoft afirmou, em 2022, que o acordo de US$ 68,7 bilhões levaria franquias como Call of Duty, Diablo, Overwatch, Warcraft e Candy Crush para dentro de sua estratégia de games, além de ampliar a força do Game Pass.
O problema é que conteúdo caro não garante crescimento infinito. A compra deu à Microsoft um dos maiores catálogos da indústria, mas também aumentou a pressão para provar que esse investimento faria sentido dentro de um serviço de assinatura. E, pelo que os números sugerem, o Game Pass não entregou a escala que a empresa imaginava.

O preço virou parte do problema
Outro ponto delicado foi a política de preço. Em 2025, a Microsoft aumentou o valor do Xbox Game Pass Ultimate para US$ 30 por mês, uma alta pesada que teria provocado uma saída forte de assinantes. Depois, a empresa reduziu o preço para US$ 23, mas o serviço continuou mais caro do que antes.
Ao mesmo tempo, a Microsoft mudou uma das promessas mais fortes do serviço: novos Call of Duty deixaram de ser incluídos no Game Pass no lançamento. Para um serviço que passou anos vendendo a ideia de grandes jogos day one, essa mudança é um sinal claro de que a conta ficou mais difícil do que parecia.
O reset do Xbox passa pelo Game Pass
A reestruturação não é pequena. O WSJ afirma que a Microsoft cortará cerca de 3.200 postos na divisão Xbox, sendo 1.600 demissões imediatas e outras 1.250 ao longo do ano fiscal, além de 350 funcionários afetados por vendas ou separações de estúdios.
Esse movimento vem acompanhado de uma mudança maior de mentalidade. A Microsoft está reduzindo estrutura, vendendo ou separando estúdios e tentando concentrar esforços em projetos com maior chance de retorno. Nesse cenário, o Game Pass deixa de ser apenas um produto importante e passa a ser um dos principais sintomas do problema: era para ser o motor da nova fase do Xbox, mas virou uma aposta cara, pressionada e abaixo das expectativas.
O modelo de assinatura ainda tem força, mas já não resolve tudo sozinho
O Game Pass não está morto. Ele ainda tem uma base grande, uma marca forte e continua sendo uma das ofertas mais conhecidas da indústria. Mas a narrativa mudou. Antes, o serviço era tratado como o futuro inevitável dos games. Agora, aparece como uma peça que precisa provar que consegue crescer sem destruir margem, desvalorizar lançamentos ou depender de investimentos cada vez maiores.
No fim, a crise do Xbox não é apenas sobre demissões ou venda de estúdios. É sobre uma estratégia inteira que prometia escala, recorrência e domínio de ecossistema, mas esbarrou em uma realidade bem mais dura.
A Microsoft apostou que o Game Pass poderia redefinir o mercado. Agora, precisa mostrar que ele consegue sustentar o próprio Xbox.